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"Os cubanos vivem em sequestro social"

"Os cubanos vivem em sequestro social"

Primeiro Fidel, depois Raúl. Os irmãos Castro governaram Cuba por quase 60 anos. Agora, o poder deixa de ter o apelido Castro e passa para as mãos de Miguel Díaz-Canel, até aqui primeiro vice-presidente do país. Mas será que o poder sai mesmo das mãos de Raúl?

Luis Enrique Ferrer GarcíaTudo indica que não. Essa é pelo menos a opinião de Luís Enrique Ferrer Garcia. Antigo preso político, condenado a 28 anos de cadeia na sequência da chamada Primavera Negra em 2003, por estar envolvido em iniciativas cívicas que pediam reformas democráticas em Cuba. Alvo de violência na cadeia, esteve várias vezes em greve de fome.

Foi libertado no final de 2010 e exilado com a família.  É o representante da União Patriótica de Cuba fora do país e vive atualmente em Miami. É a partir de lá que nos responde.  

VerDaqui (VD) - Hoje Raúl Castro entrega o poder a Miguel Díaz-Canel. O que é que esta mudança pode dar a Cuba?

Luis Enrique Ferrer (LEF) - Enquanto Raúl Castro for vivo, enquanto a família Castro tiver o poder, enquanto Raúl Castro estiver à frente do Partido Comunista de Cuba (PCC) e da velha guarda, como se chama na ilha aos antigos líderes do comunismo cubano, que vieram da Sierra Maestra e tomaram o poder pelas armas, dificilmente Díaz-Canel, ou qualquer outra pessoa que seja de outra geração e que não tenha estado em Sierra Maestra, poderá fazer algum tipo de mudança e melhorar a situação dos cubanos. Na realidade, vemos Díaz-Canel como uma marioneta, uma pessoa que vai estar controlada, dirigida e manipulada constantemente pela família Castro. Estão a pô-lo no poder porque é uma pessoa de confiança e que eles sabem que podem usar e manipular facilmente.

(VD) - Mas, então, porque não se mantém Raúl como presidente?

(LEF) - O que procura a ditadura é ganhar tempo. E é uma espécie de lavar o rosto, de mostrar uma nova cara ao mundo para ganhar tempo e sofrer menos pressões internacionais pelo que se passa em Cuba.
Exemplo de que não haverá mudança é o que está a acontecer em Cuba por estes dias (em que se procede a mudanças no Conselho de Estado). O que acontece é que praticamente todos os opositores estão cercados por militares castristas para impedir que saiam de casa. Isso mostra o quão tolerante vai ser o governo de Canel. Dele ou de qualquer outro que venha enquanto não houver eleições livres em Cuba, em que o povo escolha livremente numa eleição com vários partidos, com imprensa livre, com observadores internacionais e onde todos os cubanos tenham o direito legal de eleger e ser eleitos.
Repito, enquanto Castro comandar o PCC, vão continuar a controlar e manipular quem estiver no poder. Vão passar a ideia de que as coisas estão a mudar, mas não é assim. É como o que aconteceu na República Dominicana há meio século com a ditadura de Trujillo que usou Joaquín Balaguer como marioneta. As coisas só mudaram realmente quando o ditador foi assassinado.

(VD) - Portanto, a democracia em Cuba é para já uma miragem…

(LEF) - Não pode haver democracia onde existe apenas um partido legal (o PCC) e onde a Constituição diz que o Partido Comunista é o “órgão reitor da sociedade”. Um país onde os outros partidos são perseguidos e não são reconhecidos legalmente.
Perante isto, o que acontece é uma farsa eleitoral onde elegem deputados, mas só há um “candidato” para cada lugar, a maior parte ligados ao PCC. São depois essas pessoas que elegem o Presidente. E, claro, depois todas as decisões na Assembleia são unânimes, nunca ninguém contesta nada.

(VD) - Mas o povo cubano parece viver bem com isso…

(LEF) - Bem, o ser humano procura sempre melhorar a sua situação, ainda para mais quando vive uma situação tão difícil há quase 60 anos, e quer melhorar a sua situação rapidamente, no momento. E os cubanos normalmente o que os preocupa é a comida e ter um pouco mais de dinheiro, ou seja, melhor bem-estar porque não têm nenhum. Se Díaz-Canel lhes der isso, a maior parte das pessoas, que nem quer saber de política e só se preocupa em subsistir, vai ficar contente com ele. Mas quando os bens voltarem a faltar como acontece agora, o descontentamento regressa.
É assim. As pessoas em Cuba preocupam-se é em sobreviver dia-a-dia e se alguém lhe promete uma situação melhor, que lhes permita matar a fome, ficam contentes. Além disso, acostumaram-se a pensar que se falam de política metem-se em problemas. Por isso falam pouco e muitas vezes nem sabem do que falam. Dizem que apoiam a Revolução porque se disserem o contrário, acreditam que serão presos no dia seguinte e toda a família irá pagar as consequências. É uma espécie de sequestro social.

(VD) - E o Luís gostaria de voltar a Cuba?

(LEF) - Claro que sim! Só não volto porque não me permitem. Represento a União Patriótica de Cuba no exterior e o nosso principal objetivo é tentar recuperar a democracia para o povo cubano e lutar para que o povo cubano tenha melhores condições de vida, além da liberdade social e política que hoje não tem. Queremos melhorar as condições económicas para que as pessoas do meu país não necessitem de emigrar. Os cubanos antes não emigravam e hoje há dois milhões espalhados pelos vários continentes. Se me permitirem voltar a Cuba, voltarei. E se no futuro quiserem a minha presença para melhorar as condições de vida dos cubanos, lá estarei. Dedico praticamente metade da minha vida a tratar de alimentar a minha família e a outra metade a lutar pela liberdade, pelo respeito pelos direitos humanos e pela democracia em Cuba.

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