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O português que passa férias com Kim Jong-Un

O português que passa férias com Kim Jong-Un

O líder da Coreia do Norte, Kim Jong-Un, foi considerado a oitava pessoa mais influente do mundo em 2018. Para muitos, não passa da figura de cabelo estranho que aparece na televisão. Para outros, é um amigo. É o caso de João Micaelo. O português que durante anos foi o melhor amigo de Kim Jong-Un e que já foi passar férias à Coreia do Norte, mais do que uma vez, a convite do líder norte-coreano.

Esta é a história de uma amizade que começou, de forma improvável, numa escola suiça.

Paulo Alexandre Santos (PAS) - João, vamos ao início; Como é que um miúdo português se torna o melhor amigo do  filho do (na altura) presidente da Coreia do Norte?

João Micaelo (JM) - Bom, os meus pais emigraram para a Suiça, para Berna, e eu vim com eles. Um dia, na escola, no final dos anos 90, chegou um rapaz da Coreia do Norte para a nossa turma e sentou-se na carteira ao meu lado. Na altura ainda não havia muitos estrangeiros na Suiça como há hoje. Nós eramos dos poucos e, então, como eu falava mal alemão e ele também, automaticamente ficámos amigos até ele se ir embora.

PAS - Mas na altura soube quem ele era?

JM - Ele na altura era chamava-se Un Pak e foi-nos apresentado como o filho do embaixador da Coreia do Norte aqui em Berna. Nunca duvidámos. Na altura também ninguém tinha muita informação e a Coreia do Norte era um país como os outros, lá longe...

PAS - E como era a sua relação com Un Pak (Kim Jong-Un)?

JM - No início, havia aquela dificuldade com a língua, mas nós sempre fomos os melhores amigos enquanto ele esteve aqui. Ele gostava de jogar basquetebol e... interesses de miúdos naquela altura. Eu tinha 14 anos e ele também, saíamos, íamos andar de bicicleta, jogávamos PlayStation, víamos uns filmes, mas a maior parte do tempo era a jogar basquetebol. Saíamos à noite de vez em quando mas nunca para discotecas. Ainda não havia aquela coisa de ir à discoteca. Íamos à piscina, ele ía a minha casa fazer os deveres da escola e eu para casa dele. Às vezes almoçava lá outras vezes ele em minha casa, com os meus pais.

joao e kim

PAS - E nunca desconfiou quem ele era?

JM - Nunca desconfiei. Ele, pronto... tinha um bocado de coisas a mais: televisões e essa coisa toda, mas como ele foi apresentado como filho do embaixador, nunca desconfiei. Só mais tarde, já quando ele ía embora e a gente se conhecia há mais tempo é que ele me disse uma vez que o pai dele era o presidente. Eu, pronto, nunca acreditei porque ele estava ali comigo, numa escola pública e essa e eu dizia "tá bem, tá bem". Só dez anos mais tarde, já ele tinha ido à vida dele e eu à minha, apareceram aqui uns repórteres do Japão a contar-me a história. E eu aí comecei a pensar, "é pá, queres ver que se calhar ele tinha razão?"

PAS - Quando é que teve a certeza?

JM - Quando isso aconteceu, em 2009, comecei a interessar-me, a pesquisar e ver as notícias e, pronto, vi que era verdade.

PAS - Reconheceu-o logo ou ele estava diferente?

JM - Ao fim de algum tempo as pessoas mudam... Ele engordou um pouco, eu também engordei um pouco (risos) mas... reconheci-o logo.

PAS - E já usava aquele corte de cabelo na Suiça?

JM - Não, não naquela altura aqui não usava aquele cabelo! (risos)

PAS - Quando ele chegou ao poder adotou uma postura algo provocatória, nomeadamente em relação ao armamento nuclear. Daquilo que conhecia dele, ficou surpreendido? o que é que esperava de Kim Jog-Un?

JM - Bom, na verdade não esperava nada. Ele foi educado de acordo com o partido e o país dele, foi educado para aquilo. Por isso, era o que se esperava dele, seguir o que o pai e o avô já tinham feito. Mas acho que houve coisas mais empoladas do que aquilo que realmente aconteceu, falou-se mais do que o que se passou realmente.

PAS - E esta boa vontade repentina? Devemos ficar de pé atrás ou confiar neste "novo" Kim Jong-Un?

JM - Eu acho que o mundo tem mudado e acredito que ele também tenha mudado. Depois de algum tempo como líder, pode querer agora avançar com as ideias dele. Ele chegou ao poder em 2011, estamos em 2018 e as coisas mudam. Pode haver coisas que ele quer fazer que sejam boas para o futuro.

PAS - Ter estudado fora pode ter-lhe alargado os horizontes...

JM - Sim, ele estudou aqui na Suiça e esteve noutros dois países, pelo que sei. De certeza viu outras coisas e, pronto, pode influenciar. Tal como a irmã dele que eu conheci também, embora, como ela era bastante mais nova nunca tivemos relação além do “olá” e pouco mais.

PAS - E quando foi a última vez que estiveram juntos?

JM - Ele foi-se embora da escola, penso que, em 2001. Uns meses depois voltou, ligou-me e estivemos a conversar umas horas. Depois, passou muito tempo... Encontrei-me com ele em 2012 e 2013, quando estive na Coreia do Norte a convite dele. Primeiro um fim de semana, uma coisa muito espontânea e muito especial para mim. Um ano mais tarde, voltei lá e fiquei cerca de uma semana e meia.


PAS - Foi uma aventura, aposto!

JM - Sim, por acaso sempre fui muito bem tratado (risos). Foi uma coisa especial, mostraram-me a cidade, o país, muita coisa... para mim muito especial, nunca tinha visto aquela maneira de viver das pessoas e como é que o país funciona.

PAS - Esteve com o seu amigo Kim no palácio residencial...

JM - Sim, mas fiquei hospedado num hotel, que eles têm lá muitos (risos). Tinha sempre uma pessoa comigo e um tradutor. Tinha convites para ir almoçar e jantar com ele. Fui a dois jantares e um almoço com ele. Sempre uma grande festa com muita gente. Estava a mulher dele também, na primeira vez. No ano a seguir tinha nascido a filha e a mulher não estava.


PAS - Kim Jong-Un é o líder da Coreia do Norte... Falaram disso? De política?

JM - Nada. Foi mais dos tempos que passámos e isso. Também nunca foi minha intenção falar disso, o que faz ou deixa de fazer... não tenho nada a ver com isso. É mais uma coisa de amigos, de pessoas que passaram meia dúzia de anos juntas, mais ou menos.

PAS - Sentiu-se controlado durante a sua estadia?

JM - Não, mas tinha sempre as coisas programadas para ir aqui e ali, visitar isto ou aquilo. Poucas vezes saía, até porque lá falar inglês com alguém é para esquecer e então quando saía era sempre com as pessoas que estavam comigo.

PAS - Que ideia trouxe da Coreia do Norte?

JM - Eu sou cozinheiro e viajei muito durante uns tempos. E, sim, aquele é um país especial que funciona de outra maneira. Mas não existe aquela grande pobreza que se diz por todo o lado, e como vi, por exemplo, noutros países em África. As pessoas falam dele como o líder máximo e, sobretudo, do avô. De resto, eu não vivi em Portugal antes do 25 de abril porque ainda não era nascido mas, pelo falar dos meus pais e avós, não devia ser muito diferente.

PAS - E desde então, tem mantido contacto com Kim Jong-Un?

JM - Bem, entretato, eu fui trabalhar para Viena, tive alguns problemas pessoais e apagou-se um pouco. Mas eu também queria manter alguma distância porque não tem sido fácil. Desde 2009, não há semana que não tenha jornalistas atrás de mim. Até no trabalho e não tem sido fácil, mesmo com os patrões. Por isso, tenho tentado manter-me afastado.

PAS - Gostava da voltar à Coreia do Norte ?

JM - Gostava, gostava de o rever, já passaram quase cinco anos. Ele também tem uma filha, eu tenho um filho, pronto o tempo passa... E voltar a falar em privado sobre o que tem acontecido nas nossas vidas, como amigos. As outras coisas, vêem-se nas televisões e nos jornais.

PAS - O que significa para si ser amigo de uma pessoa como Kim Jong-Un?

JM - Para mim e para alguns amigos meus, que também conviveram com ele naquela altura, será sempre uma coisa especial na nossa vida, que fica para sempre.

PAS - Já pensou convidá-lo a vir consigo a Portugal?

JM - E porque não? (risos) Agora dizem por aqui que ele até pode encontrar-se com o Trump cá, na Suiça. Eu até já disse aos meus patrões: "preparem-se que um dia destes o Kim Jong-Un vem aqui almoçar!" (risos). Isso é que era uma grande surpresa...

 

Ouça aqui toda história contada pelo João: 

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