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Covid-19: "Estamos a ser privados daquilo que mais nos tranquiliza: os outros."

Covid-19: "Estamos a ser privados daquilo que mais nos tranquiliza: os outros."

Aos poucos, vamos todos ter que voltar à nossa vida. Às rotinas, ao trabalho, ao tão desejado convívio que esta pandemia do novo coronavírus nos roubou subitamente. Mas esse regresso não será de um dia para o outro. Na verdade, já todos percebemos, dificilmente voltaremos ao ponto onde estávamos. O distanciamento social vai manter-se, esse é pelos menos o desejo das autoridades sanitárias, como forma de evitar que a situação se descontrole e, de repente, Portugal se veja num cenário caótico como aquele em que vários países se viram mergulhados.

Mas, ainda que consigamos evitar o vírus, qual é o custo desse isolamento para nossa saúde física e mental? É o mote para uma breve conversa com a psicóloga clínica Marcela Matos, investigadora do Centro de Investigação em Neuropsicologia e Intervenção Cognitivo-Comportamental (CINEICC) da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra (FPCEUC).

Paulo Alexandre Santos (PAS)Os portugueses têm sido “convidados” a ficar em casa. Aparentemente, isso tem dado frutos no que toca ao controlo da Covid-19, mas esse confinamento pode representar também ele uma ameaça?

Marcela MatosMarcela Matos (MM) Por aquilo que eu vejo à minha volta, e pela minha experiência enquanto investigadora nesta área, eu penso que o isolamento e o sentimento de solidão são grandes desafios. Nós, seres humanos, somo seres sociais, precisamos uns dos outros para sobreviver, não só em termos da nossa integridade física, mas sobretudo no nosso bem-estar mental. As outras pessoas regulam-nos a todos os níveis, regulam-nos a nível emocional, mas também nos regulam em termos fisiológicos.

PAS – Isso significa que, sem os outros, a nossa saúde pode ser abalada?

MM – Claro! Esta pandemia, conjuga dois aspetos que podem ser muito perniciosos para a nossa saúde mental. Por um lado, esta constante ameaça à nossa integridade física, porque o coronavírus e a doença (covid-19) representam efetivamente uma séria ameaça à nossa saúde e à saúde dos que nos são próximos. E, quando nos sentimos ameaçados, as nossas respostas fisiológicas e emocionais envolvem a ativação do nosso sistema de ameaça, portanto sentimo-nos ansiosos, inseguros, stressados, com medo… E isto está relacionado com consequências psicológicas. Mas, por outro, há também alterações em termos somáticos, do nosso corpo, ao sentirmo-nos mais agitados, com menos concentração, com mais dificuldade em dormir e isso pode ter impacto na nossa saúde.

PAS – Portanto, estamos a enfrentar duas ameaças…

MM – Sim, a par da Covid-19, estamos ao mesmo tempo a ser privados também daquilo que é mais capaz de nos tranquilizar e de nos fazer sentir seguros, que é o sentimento de nos sentirmos ligados e próximos dos outros à nossa volta.

PAS – E qual é a forma de minimizar os danos?

MM – É muito importante, apesar deste isolamento que tem de ser feito, continuar a garantir que as pessoas não perdem a ligação aos outros, às pessoas que são importantes na vida delas e até mesmo a desconhecidos, a vizinhos, a pessoas com quem até hoje nunca tinham falado. Temos de evitar que esta pandemia faça com que passemos a olhar para o outro com medo. Porque o outro é o veículo de transmissão, mas o outro não pode ser visto apenas como o veículo de transmissão do vírus.

PAS - Temos de garantir a ligação aos outros para continuarmos a sentir-nos seguros…

MM - Sim, mas também é preciso que permitamos que os outros nos apoiem e que nós nos apoiemos nos outros.  Aspeto importante também, é sermos capazes de aceitar para nós mesmos que estamos a viver tempos difíceis. Sermos capazes de notar que é difícil: é difícil para todos e também o é para nós; e que vai haver dias que em casa vai estar uma confusão, que os nossos filhos não nos vão deixar trabalhar… E vamos estar stressados… E que, às vezes, vamos discutir com os nossos companheiros. E tudo isso faz parte deste processo. E esta capacidade de notar isso e de lidar com isso de forma que seja construtiva e adaptativa, e não crítica, ou seja, não nos criticarmos por isso, é muito importante.

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