Tenho saudades do verão…

Hoje dei por mim a pensar no verão. Tenho saudades do verão e, consequentemente, admito, tenho saudades de Angola. E, não só por isso, mas também, apetece-me falar sobre a minha aventura em Angola e o meu regresso a Portugal.

Quando estava à espera do avião para ir para Angola lembro-me de imaginar o que me esperava daquele lado. Era a primeira vez que andava de avião e era a primeira vez que ia para um país sobre o qual ouvia falar mais mal do que bem.

Tudo o que ouvia sobre Angola era aterrador. A falta de segurança, os assaltos, os crimes, o diminuto valor que dão à vida… Imaginei-me algures num daqueles musseques, pintado pelo capim alto, a observar as crianças que, constantemente vemos na TV, descalças, seminuas, com fome, e aí, a apanhar o primeiro avião de regresso a Portugal. Como sobreviveria eu a um “mundo” assim?

Cheguei a Luanda a 01 de Outubro de 2011…passados mais de seis anos, sobrevivi.

Em Luanda as horas fogem-nos por entre os dedos, os dias passam sem darmos conta, os anos correm a passos silenciosos.

De repente as horas de leitura, os cafés numa esplanada com os amigos, os passeios de fim-de- semana de mãos dadas pela rua…de repente, tudo isso faz parte de um mundo aparte. Lembra um passado distante.

De repente os nossos dias pautam-se por níveis de stress surreais, por horas perdidas no trânsito, faltas de energia, falta de água, escassez de alimentos nos supermercados…o lixo, as crateras no alcatrão, a pobreza na rua a céu aberto…torna-se o quotidiano num imbróglio de poeira e incertezas e, sim, também de medos, muitos medos.

Pensava frequentemente o que tinha ido fazer para um país onde não podia de manhã, calçar os ténis e o fato de treino e correr com os phones nos ouvidos ao som das músicas dos anos 80 que tanto adoro? ‘Que me passou pela cabeça quando aceitei este desafio descabido de lógica?’

Só se conhece, verdadeiramente, Angola, vivendo-a. Que me perdoem os grandes críticos e os jornalistas que acreditam naquilo que escrevem mas, é esta a verdade, nua e crua. Vejo notícias e oiço reportagens sobre este país mas quando fecho os olhos repetindo silenciosamente o que vi, o que li, em pouco consigo sentir Angola. Não revejo, verdadeiramente, nessas imagens ou nessas palavras, as crianças de pé descalço com o sorriso nos lábios a correr paralelamente ao carro quando lhes acenamos de dentro do nosso conforto de ar condicionado no máximo, não lembro as mortes na estrada, os corpos deitados na estrada horas e horas a fio em alcatrão quente à espera de um carro que os leve que tarda em chegar; os protestos, o nascer do sol que ‘alaranja’ todo o céu de uma forma que não há igual, ou o laranja cor de fogo da acácia rubra, a chuva que parece cair de um caldeirão em fogo forte. Nem as baratas, os ratos que parecem coelhos, o ‘ya’ repetitivo numa conversa casual. O ‘Dama’, o ‘tia’, o ‘madrinha’.

Só pode, verdadeiramente, falar sobre Angola quem a vive, quem a viveu. Não há livros ou estudos que substituam esta experiência.

Pensava muitas vezes, quando regressar a Portugal o que vou fazer quando me apetecer parar na rua e comprar às zungueiras uma saca de paracuca num dos meus frequentes ataques de gulosice? Onde encontrarei a ginguba com aquele açúcar entranhado? A quem vou recorrer quando tiver desejos de comer funge, ou um bom mufete com peixe acabado de pescar? Onde vou encontrar a verdadeira banana pão? Em que praia num domingo de sol vou encontrar quem me venda ali, sentada na toalha, depois de um mergulho nas águas mornas, a ginguba para acompanhar uma cuca fresquinha?

É difícil falar de Angola sem o saudosismo inerente ao povo português. O mesmo saudosismo nas palavras do meu avô de 92 anos quando relembrava o tempo em que viveu em Angola.

Entretanto voltei ao meu país, pelo cansaço, pelos problemas económicos e todos os outros dessa terra que me acolheu mais de seis anos. Mas sempre disse que as saudades iam existir, talvez, quem sabe, as maiores que já tive de algum sítio.

Sei que com essa aventura aprendi a relativizar muita coisa na vida, e a aceitar tanta coisa que muitas vezes não aceitamos por puro egoísmo ou comodismo. Viver aqueles anos em Angola foi A experiência da minha vida e é um marco incomparável na vida de qualquer pessoa que por lá passou, se não for por mais nada, que seja pela aprendizagem única da cultura, dos cheiros, do semba daquela gente.

Se alguém vos disser o contrário, não acreditem! 

Mas, resumindo, tenho saudades do verão, essa é que é essa. E pode ser o de Portugal que já era bem vindo…


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