Medo

Dizem que o medo se altera com os anos. Que, se em criança tínhamos medo da trovoada, com o passar dos anos, uns medos dissipam-se e outros (re)nascem. Nunca foi o meu caso. O meu medo sempre foi o mesmo.

Não tenho medo de alturas ou de cobras e nunca me assustaram os desafios da vida. Não tenho medo de espaços fechados e nunca temi as tempestades. Mas sempre, desde que me conheço por gente, sempre tive medo de te perder.

Lembro-me de ti sempre com aquele chapéu creme na cabeça, impermeável, que usavas tanto para a chuva como para o sol. É com ele que te imagino lá fora, no pátio de casa, a apanhar os primeiros raios de sol. Tinhas o rádio obsoleto em cima da mesa e ouvias cassetes de anedotas repetidas, e rias, rias perdidamente, como se as ouvisses pela primeira vez. Estendias depois esse sorriso maroto quando a avó passava por ti e esticavas a mão atrevida e a saia dela esgueirava-se por entre os teus dedos.

Faz este mês mais um ano que te perdi…e parece que foi ontem. E, apesar da idade, continuo a achar que devia haver uma lei qualquer, criada pela ‘Associação Nacional dos Dias para Esquecer’ (que também deveria existir), que decretasse o apagar de um ou dois dias da nossa vida que nunca mais quiséssemos lembrar. E se tudo isto não fosse apenas um desejo íntimo ou fruto da minha imaginação fértil, eu apagava do calendário o dia 26 de Abril, de todos os anos, sem exceção. Apagava o dia que levou o meu motivo de orgulho sem avisar…o meu avô, pai, professor, ouvinte e inspiração.

O meu único medo sempre foi perder-te. E por isso hoje digo, firme: já não tenho medo de nada.


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