Devaneios (parte II)

Pegou nos dois pedaços de papel enquanto se sentava no banco da paragem e juntou-os, para que a leitura fosse possível, ao mesmo tempo que uma espécie de sentimento de culpa lhe assolava a mente.  

(Estarei a invadir a privacidade de alguém? Naaaaa! se não queriam que fosse lida deviam tê-la rasgado em mais do que dois pedaços!) - Pensou para si enquanto um bocejo lhe interrompia o pensamento.

E, ainda de boca aberta, começou a ler: “Meu amor…”

Olhou para o relógio à medida que o bocejo se estendia desviando os olhos daquelas palavras.

(7 da matina! Ninguém merece! Anda um gajo a levantar-se para trabalhar à hora em que os galos ainda aquecem as penas e depois esta gente perde tempo a escrever cartas de amor. Haja paciência!)

Poisou os dois pedaços no banco. Reviu o horário do autocarro que o levaria ao destino rotineiro.

(8 minutos atrasado. Porreiro! O meu patrão é que me vai escrever uma carta de amor hoje!)

Olhou de soslaio para os dois pedaços de papel ao seu lado e voltou a pegar neles. Juntou-os e recomeçou: “…se lês estas palavras é porque o destino não deixou que a nossa história terminasse desta forma. As palavras que dissemos naquele dia têm de ser corrigidas, a nossa história não termina assim, sinto-o cá dentro.”

Atirou ao chão os dois pedaços de papel.

(Bahhh! olha eu é que sinto cá dentro um enjoo grande com tanta baboseira! Ai que hoje é que fico desempregado! Maldito autocarro que logo hoje tinha de chegar atrasado!)

O autocarro chegou. Levantou-se e entrou na viatura mostrando o passe ao condutor.

- Desculpe, senhor motorista, não arranque. Esqueci-me de algo!

Em passo atrapalhado apanhou os dois papéis amarrotados, entrou novamente no autocarro com eles na mão e seguiu viagem.


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