Nós, os atrasados

As palavras que se seguem não pretendem ofender ninguém. Especialmente seres humanos e empresas ligadas ao sector das telecomunicações. Uff! Já me safei de uns quantos processos.  Enfim, também pouca gente lê estas palavrinhas. Mas é importante deixar estas ressalvas não vá passar por aqui a brigada do politicamente correcto.

E por onde eles passam o faroeste acontece. É uma coisa louca. Escolhem o alvo. Apontam para o alvo. Acertam no alvo. E normalmente o alvo atingido só se consegue levar uns quantos dias depois.

A táctica é sempre a mesma. Chegar. Atirar a matar. Ir passear para outra freguesia porque ali a polémica já deu o que tinha a dar. Resulta sempre. Sempre. É impressionante. Com uma dimensão que não imaginamos.

Eles andam aí. São muitos. Bem juntinhos. Com um simples propósito. Viver através da polémica. Viver através dessa adrenalina que lhes permite ser relevantes. Ou pensar que são relevantes.

A brigada do politicamente correcto é, na prática, aqueles miúdos que na escola secundária ou até antes disso precisavam de atenção. Assim sendo, iam procurar essa atenção de todas as formas. Com o surgimento da rede é só transferir essa realidade para o online. Num mundo de gente cada vez mais sozinha, esta é uma das formas preferidas para passar o tempo. Nós, enfim, cá andamos entretidos à espera que estale a próxima polémica e surjam as novas vítimas. Sempre uma excitação. Sempre uma novidade. Sempre uma ironia.

O que é verdade é que já não existe o mínimo de paciência para isto. Os temas são banais. Os ataques banais são. Perde-se tempo com miudezas sem sentido nenhum. Aqui o tamanho importa e são realmente miudezas. As vítimas, no fundo, somos nós que temos de estar a levar com isto semana sim, semana não. Já estou a ser muito optimista, eu sei. Normalmente é dia sim, dia não. Nós, que nada temos a ver com o assunto do dia, também somos levados para esta realidade alternativa discutida em caixas de comentários e redes sociais. Em parte, é mais ou menos disto que venho falar. Não é nada! Eu é que me embrulhei para aqui.

Gostava era de pegar em algo que escrevi ali para cima. Vítima. E porquê. Porque nós, os tais que chegam atrasados a todo o lado, somos vítimas. Somos, pois! Não vale a pena desmentir, nem dizer que não. Somos vítimas do tempo, que de vez em quando, não nos deixa com tempo para nada. Quando damos por ele, ele já passou e foi-se embora dizer um adeus. Uma clara má educação, diga-se. Somos vítimas sem recurso a defesa porque toda a gente nos censura. Como se os outros fossem os criadores do termo pontualidade. Somos vítimas do vício que chegar atrasado representa. Vive connosco. O tempo passa mais depressa connosco. Se não acreditam...tentem viver um dia ao nosso lado e vão perceber. Ele passa mesmo com o dobro da velocidade. Nós, sem nos apercebermos, já perdemos o tempo contado para chegar aquele jantar a horas, para ir buscar aquela pessoa no timing perfeito. É o cabo dos trabalhos justificar que a culpa não é nossa. Não é somente nossa, vá. Porque se os atrasos nos procuram, bem, alguma coisa temos de especial nesse sentido.

O certo é que seremos sempre vitimas de discriminação. Nunca seremos olhadas como as pessoas para quem o tempo não tem qualquer tipo de gentileza. E ele, malandro, ainda se ri de nós. Ri-se das pessoas que ralham connosco. Ri-se das contas que fazemos para saber quanto tempo vamos chegar atrasados. Ri-se sempre da nossa cara de vergonha a chegar a um determinado local. Ri-se ainda mais quando pedimos desculpas e elas são aceites apenas como acto de simpatia. E mais! Temos de viver, para sempre, com o estigma de que não vamos chegar a horas a qualquer lado.

Apenas precisamos de carinho e compreensão. Que não nos atirem para a mesma fogueira para onde são atiradas as pessoas da espuma dos dias e que por lá ficam menos tempos que nós. Admitimos que nos atrasamos para tudo e mais um par de botas. Em troca queremos um bocadinho de, digamos, pancadinha nas costas e bola para a frente. O mundo agradece. E o nosso relógio e sistema nervoso também.


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