Portugueses com Parkinson sem acesso a medicamento produzido em Portugal

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A farmacêutica portuguesa Bial apresentou em 2016 um novo medicamento que prometia melhorar a vida dos doentes de Parkinson. O Ongentys, cujo princípio activo é a opicapona, começou então a ser comercializado na Alemanha e no Reino Unido. Chegou, entretanto, a outros países como a vizinha Espanha, mas, quase dois anos depois ainda não está disponível no mercado nacional.

Patrícia Lopes é filha de um doente de Parkinson. Descobriu o Ongentys em Inglaterra e alertou o pai, que tentou comprar o medicamento em Portugal. “Expliquei-lhe que estava a ser vendido em Inglaterra e que o feedback era muito bom, para tentar comprar. Mas, entretanto, o tempo começou a passar e o meu pai a questionar, começou a contactar a Bial e o Infarmed e eles sempre a empurrar um para o outro.”

Em conversa com um médico do centro de saúde da área de residência, e que vive em Badajoz, descobriram que era possível trazer o medicamento de Espanha. Mas “sem comparticipação. E são 140 euros cada caixa. Não vou dizer que o meu pai pode ou não pode pagar, não é essa a questão. O problema é que continuamos a ser cidadãos de segunda, mesmo com um produto feito em Portugal”, lamenta Patrícia Lopes.

O caso relatado não é único. A presidente da Associação Portuguesa de Doentes de Parkinson (APDPk), Ana Botas, conta que “começámos a receber muitas chamadas sobre isso (Ongentys). Perguntámos à Bial e o que nos disse foi que estava a aguardar decisão do Infarmed sobre o preço.”

Enquanto isso, o pai de Patrícia Lopes, diagnosticado com Parkinson há sete anos, começou a tomar o medicamento, comprado em Espanha e sem comparticipação. “Os efeitos estão à vista”, garante Patrícia.  “O meu pai já não conseguia conduzir porque não conseguia fechar a mão. Até a comer, a minha mãe já tinha que o ajudar, e desde que começou a tomar o Ongentys começou a reverter os efeitos a doença.”

Na verdade, o Ongentys não combate a doença ou os seus efeitos. Esse é um papel de outro fármaco, a levodopa. Princípio ativo do Sinemet, por exemplo, um dos mais usados no controlo da doença. O neurologista Joaquim Ferreira, director do Laboratório de Farmacologia Clínica e Terapêutica, explica que “com o passar do tempo a levodopa vai perdendo eficácia e o que este medicamento vem fazer é ajudar a travar essa resistência, prolongando o efeito da levodopa ao longo do dia.”

Em traços gerais, o medicamento desenvolvido pela Bial ao longo de 11 anos, permite reduzir o tempo de rigidez incapacitante nas pessoas portadoras de Parkinson.

Joaquim Ferreira, também professor catedrático e investigador, participou nos ensaios clínicos que levaram ao desenvolvimento do Ongentys. Defende que “enquanto médico gostava que os meus doentes tivessem acesso a este medicamento, que tem algumas mais valias em relação a outros que temos disponíveis, do ponto de vista da simplicidade da utilização, e os melhores dados que temos sugerem que é também mais benéfico.”

Portanto, “era importante para os doentes ter o medicamento já disponível, sim. Mas o processo leva o seu tempo…”

Nesta altura, segundo o INFARMED – Autoridade Nacional do Medicamento, “no âmbito da avaliação do processo foi solicitada evidência adicional à empresa que, entretanto, respondeu encontrando-se concluída a avaliação farmacoterapêutica e farmacoeconómica, devendo ser acordadas as condições de financiamento para o SNS.”

Ou seja, nesta altura, falta que o INFARMED e a BIAL se entendam sobre a comparticipação do medicamento, que até já tem o PVP – preço de venda ao público definido e fixado em 139,50€ cada embalagem de 30 cápsulas.

A Bial confirma o ponto de situação do processo. Questionada sobre o assunto a farmacêutica, adianta que o “ONGENTYS (opicapona) foi aprovado em julho de 2016 pela Comissão Europeia e está indicado como terapêutica adjuvante de preparações de levodopa/inibidores da DOPA descarboxilase (DDC) em doentes adultos com doença de Parkinson e flutuações motoras de fim-de-dose cuja estabilização não é possível com outras terapêuticas. Neste momento é comercializado na Alemanha, Reino Unido e Espanha. 

Em Portugal está a decorrer o processo de aprovação de preço e comparticipação junto das autoridades regulamentares nacionais. Temos a expectativa que ONGENTYS (opicapona) possa ser comercializado em breve em Portugal, mas, infelizmente, ainda não conseguimos avançar com uma data concreta.”


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