Venezuela: "há gente a comer lixo na rua"

Mergulhada numa grave crise política, económica e social, a Venezuela continua à deriva com dois presidentes, um (que se diz) eleito, outro autoproclamado. O povo reclama ajuda humanitária, barrada nas fronteiras e, como se não bastasse, de repente, a maior parte dos estados do país ficou sem energia elétrica com todas as consequências que isso tem ao nível das empresas, do comércio ou unidades de saúde.

À distância, deparamo-nos diariamente com duas versões: a do presidente Nicolás Maduro (de que tudo não passa de uma cabala orquestrada pelos EUA) e a do autoproclamado presidente interino, Juan Guaidó (para quem todos os males são culpa de Maduro).

E para o cidadão comum? Como é do dia a dia? É o que procuramos saber numa conversa com o conselheiro das comunidades portuguesas na Venezuela, Leonel Moniz.

Paulo Alexandre Santos (PAS) – Depois de tudo o que tem acontecido na Venezuela nos últimos tempos, um apagão era tudo o que o povo dispensava nesta altura. Como é que os venezuelanos, e a comunidade portuguesa, estão a lidar com a situação?

Leonel Moniz (LM) – É uma situação bastante difícil para nós. Como já referiu, temos dois presidentes e a situação política e económica tem resultado em dificuldades para o povo venezuelano. A comunidade portuguesa está a ser muito afetada. Neste momento estamos a passar uma situação crítica em termos elétricos, as empresas estão fechadas com grandes perdas ao nível de vendas, além dos alimentos que se estragam por falta de refrigeração. Os portugueses, muitos deles trabalham em padarias, em supermercados e noutras áreas ligadas aos alimentos… e têm sido bastante afetados. Há vários dias que não conseguem abrir os estabelecimentos. As linhas telefónicas não funcionam, os meios de pagamento (multibanco) não funcionam e os bancos estão fechados, por isso as pessoas estão sem dinheiro.

PAS – E de onde surgiu (mais) este problema?

LM – Bom, a origem é clara! O governo não tem feito investimento nenhum na rede elétrica do país e há muito que se previa isto. A população também cresceu, quando o presidente Chavez chegou ao poder o país tinha cerca e 17 milhões de habitantes, hoje tem 33 milhões. Ou seja, a população cresceu e não se fez nenhum investimento em barragens e hidroelétricas. E a rede elétrica está bastante deteriorada, os cabos, falta iluminação…

PAS – E para lá deste problema, que estará a ser resolvido, como é o dia a dia na Venezuela? Tem-se falado muito da falta de alimentos, há fome no país?

LM - Se a ajuda humanitária não conseguir entrar no país será um desastre, porque o nosso país está a passar fome. Há famílias que comem uma vez ao dia, outras duas e algumas podem conseguir comer três vezes, depende da sua condição económica. Mas há pessoas a comer lixo na rua. E depois você pode ir ao supermercado e não tem o que procura, nem carne, frango, nada. Alguns só vendem verduras. Além disso, há dificuldades na medicina, nos hospitais, as pessoas têm perdido o poder de compra, não têm dinheiro, vão ao banco para levantar dinheiro e os bancos dizem que não há. A comunidade internacional já percebeu o que se passa e não faz nada, mas tem de tomar uma decisão porque senão isto vai tornar-se um problema maior.

PAS – E perante isso, qual é o sentimento e a vontade da comunidade portuguesa?

LM – A nossa comunidade está muito, muito afetada, os seus negócios vão mal. Você vai a um negócio de um português e vê que não tem matéria prima para os seus produtos, e depois o pouco que produzem é difícil as pessoas comprarem. Muitos negócios têm fechado. Por isso a nossa comunidade tem saído a um ritmo alarmante. Muitos [lusodescendentes] não tinham pedido a dupla nacionalidade e agora os consulados estão entupidos com pedidos. Além disso, há muitos a sair de forma ilegal para irem a Portugal tratar dos papéis, porque aqui está tudo bloqueado, é um inferno. Além do abuso que é aquilo que se paga. E as pessoas estão a sair, para os EUA, para Portugal, para a Espanha mas vão até a pé para outros países sul-americanos. Vão pela selva, por fronteiras ilegais o que é preocupante.

PAS – Qual é a sua expectativa para o futuro próximo da Venezuela?

LM – Não sabemos o que realmente pode acontecer. Há quem espere uma intervenção externa, por outro lado as pessoas ligadas ao governo acreditam que é possível levantar o país, mas temos 20 anos de atraso. Agora, uma guerra civil pode estar aí a chegar. Há aqui muitos delinquentes, muita gente foi armada pelo governo e isso é preocupante. Há três ou quatro anos já sofremos uma onda de sequestros, quem era estrangeiro era sequestrado, e os portugueses foram os que mais sofreram. E há muita gente assutada com a situação, que deixa tudo, a sua casa, os negócios e vai embora.

 


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