Os dispositivos móveis no jornalismo

Ensaios para um ensaio sobre jornalismo | Dispositivos móveis

 

A evolução da tecnologia transforma todas as áreas da sociedade. E o jornalismo não foge à regra. Por um lado, as novas ferramentas à disposição convidam a uma adaptação no modo de fazer. Por outro, as novas formas de distribuição e consumo de informação exigem uma agilização de processos assente nessa tecnologia. No fundo, o atual momento não é mais do que um novo passo na caminhada do jornalismo, que ao longo dos tempos se foi adaptando à transformação das ferramentas analógicas, aos novos meios e diferentes tipos de consumo.

As notícias andam hoje na palma da mão. A mobilidade é uma das palavras chave, tanto para os jornalistas como para os consumidores de informação.

Os dispositivos móveis (e a internet) generalizaram-se e permitem hoje ao repórter atuar de imediato perante um acontecimento inesperado com que se depara em qualquer lugar. Ao mesmo tempo, o leitor, que pratica o seu jogging à beira mar, é imediatamente informado desse mesmo acontecimento. É a tecnologia a funcionar quase como uma extensão de nós mesmos.

Esta potencialidade dos dispositivos móveis reforça também outra característica intrínseca ao jornalismo: a atualidade. Com o smartphone sempre à mão, o que procuramos a cada instante são as notícias da hora. Algo que ‘caiu’ na hora anterior parece já ultrapassado.

O velhinho “horário nobre” deu lugar vários horários nobres ao longo do dia; as horas de ponta dos transportes, a entrada ao trabalho quando se liga o computador, a hora do almoço ou da pausa para café, ou mesmo já naquela última ronda pelas redes sociais antes de dormir.

Ah, e sem esquecer os sistemas de alerta que nos disparam no ecrã sempre que há algo de novo!

Além disso, a proximidade. Hoje, este tipo de dispositivos permite que o recetor possa selecionar a informação que recebe com base na sua localização. O acontecimento da minha rua pode chegar a muita gente das redondezas. Assim como a alguém do outro lado do mundo.

O mesmo com as nossas áreas de interesse, que podemos escolher para que nos sejam apresentadas em primeiro lugar pelo nosso telefone “inteligente”.

Sobre o jornalista, munido de meios, aumenta a pressão para dar de imediato (já nem falamos do ‘dar primeiro’ de outros tempos). Pressão que, muitas vezes, acaba por levar a notícias com imprecisões ou gralhas.

Além disso, vai ganhando espaço o jornalismo do cidadão, que chega primeiro, recolhe imagens e testemunhos que muitas vezes acabam nos meios de comunicação.

Outro problema que ainda me parece associado aos novos meios, nomeadamente aos dispositivos móveis, tem a ver com a falta de adaptação dos conteúdos. Até que ponto o jornalista, na elaboração de uma peça, pensa na forma como esse trabalho será apresentado num dispositivo móvel? Dispositivos com tamanho reduzido, onde alguma da informação pode ser limitada ou, noutros casos, um ‘lençol’ de texto que pode desmotivar um leitor à partida!

E se a tecnologia nos permite hoje produzir conteúdos multimédia mais atrativos para o leitor, também é verdade que continuamos a ter sites que se apresentam nos dispositivos móveis em modo responsive, em que mal se consegue ler alguma coisa quando mais navegar no mesmo. Nos casos em que há uma versão mobile do site, acaba por ser uma adaptação automática, em que muita da informação se perde.

Verdade seja dita, não há tempo nem gente para fazer versões diferentes da mesma notícia para cada plataforma. Mas, não são os dispositivos móveis uma das plataformas preferenciais do consumo de informação? Vale a pena ter isso em mente quando se produz uma notícia.

A par da mobilidade, da portabilidade, os dispositivos móveis vieram abrir uma nova era no que toca à interação, permitindo reações instantâneas à informação veiculada. Esta é uma das potencialidades cada vez mais explorada quer pela TV como pela Rádio.

Uma das questões com que o jornalismo se debate é o financiamento. Ora, aqui, o contributo dos dispositivos móveis também pode ser importante, seja através, por exemplo, das assinaturas digitais ou de conteúdos pagos disponíveis apenas nestas plataformas.

Em suma, os dispositivos móveis trouxeram consigo uma nova forma de produzir informação, mas também novos hábitos de consumo. Criaram uma relação bidirecional entre jornalistas e recetores de informação. Trouxeram liberdade para produzir e consumir em qualquer lugar. Abrem a porta a novos conceitos de negócio.

Um mundo de oportunidades em simples aparelhos que, em troca, só pretendem algo como… manter-nos reféns deles próprios.


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